Compreender as estratégias de recrutamento dos traficantes através da teoria de culto

16 outubro 2018

Megan Lundstrom  | Executive Director, Free Our Girls
Angie Henderson  | Professor of Sociology, the University of Northern Colorado

Nota do editor: este artigo contém descrições explícitas de abuso e trauma de vítimas e sobreviventes do tráfico.

A investigação sobre tráfico sexual tem sido afetada pela falta de dados fiáveis, limitando as formas como entendemos a indústria de muitos milhares de milhões de tráfico sexual. Para remediar isto, no verão de 2017, realizámos entrevistas qualitativas e aprofundadas com uma amostra de 54 mulheres nos Estados Unidos que foram identificadas como sobreviventes ou vítimas atuais de tráfico sexual. A amostra foi recrutada através da rede nacional existente da Free Our Girls com mais de 1600 mulheres atual e anteriormente exploradas em termos comerciais e sexuais. As entrevistas foram realizadas presencialmente e por telefone. Utilizando a teoria de culto como uma estrutura, as nossas investigações não publicadas analisam as experiências de recrutamento e controlo das mulheres durante o período em que foram traficadas. A teoria de culto sugere que 15 mecanismos reforçam e estabilizam grupos de culto. A nosso ver, cada um deles contribui para institucionalizar e perpetuar a indústria do sexo comercial.

Uma característica fundamental da teoria de culto defende que o grupo está preocupado em trazer novos membros. Economicamente, isto faz sentido, uma vez que quanto mais vítimas um proxeneta utiliza para trabalhar, maior é a sua margem de lucro. Como parte das suas táticas de recrutamento, os traficantes ocupam espaços públicos, procurando oportunidades para interagir com mulheres e raparigas vulneráveis. Os nossos dados revelam que, muitas vezes, os traficantes atacam as vulnerabilidades das vítimas. De acordo com as histórias das nossas participantes, aparentemente, os traficantes preveem crises iminentes na vida das raparigas e mulheres que aliciam. Na verdade, uma sobrevivente utilizou a linguagem de culto ao descrever como foi recrutada: “Estes traficantes têm a escola toda, percebe? É quase como se fossem à escola de traficantes para aprenderem a utilizar estas técnicas de lavagem cerebral do tipo de culto.”

Estas técnicas foram comummente descritas pelas mulheres da nossa amostra. Os traficantes apareceriam subitamente e ofereceriam uma solução para uma crise financeira iminente. Uma sem-abrigo participou e descreveu ter ido a um pequeno-almoço gratuito onde foi abordada por uma traficante:

De repente uma mulher aproximou-se…e dirigiu-se a mim dizendo: “Consigo perceber que foi alvo de abuso,” e, em seguida, acrescentou: “Também fui explorada, por isso sei como é.” A seguir, tentou rapidamente estabelecer uma ligação muito forte…, em seguida, levou-me para o seu apartamento…e quando chegámos fechou a porta, ficou à frente da mesma e disse-me que o nome que me dera era falso. Depois, levou-me para o seu quarto e eu percebi que havia outros homens nesse quarto…Estava a ser violada, por isso, durante esse tempo, sentia-me realmente destroçada e, em seguida, fez-me entrar no mundo da prostituição. E assim o processo de recrutamento foi muito mais rápido por causa dos meus traumas do passado, das minhas experiências do passado.

O nosso estudo descobriu que a súbita insegurança económica e habitacional contribuía frequentemente para a vulnerabilidade das vítimas, uma vez que o seu possível traficante entrava em cena com o que parecia ser uma solução simples. Quase 40 por cento das mulheres que foram recrutadas para o tráfico sexual indicaram que uma crise de bem-estar económico precedeu o seu recrutamento. Treze destas mulheres estavam em perigo financeiro iminente: quatro foram expulsas da casa dos seus pais, cinco já estavam desalojadas ou moravam em abrigos, duas perderam os seus empregos e duas terminaram uma relação com uma pessoa que era a principal fonte de rendimento do lar.

Para a maioria das mulheres da nossa amostra, a prostituição como uma solução para as preocupações financeiras já havia sido introduzida durante o processo de aliciamento, que geralmente durava entre seis meses e dois anos. Em geral, quando as mulheres encontravam o seu traficante, este fingia ter interesse romântico nelas para conhecê-las melhor. Durante esse período, as vulnerabilidades da vítima, inclusive económicas, foram reveladas e exploradas em benefício do traficante. A falta de opções levou estas mulheres a fazerem a única escolha percebida, a prostituição. Estas últimas não consideraram o traficante responsável pela sua escolha.


Captura desfocada à noite. Unsplash/Alex Knight.

Outras sobreviventes explicaram que eram responsáveis por recrutar e aliciar os traficantes. Tal como referiu uma participante: “Quando andava na vida*, era tão boa a ensinar as novas raparigas que outros proxenetas pagavam ao meu homem para que eu ensinasse as raparigas deles. Também consegui encontrar soluções para todas as situações e as pessoas pagavam ao meu proxeneta em troca dos meus conhecimentos.”

Embora as estratégias dos traficantes variem, o traço comum no nosso estudo é que o recrutamento é vital para a manutenção do grupo, e que atacar as vulnerabilidades das mulheres é o costume para trazer novos membros.

A nossa investigação é importante para entender como os profissionais podem satisfazer melhor as necessidades dos seus clientes. Em suma, as vítimas do tráfico sexual são uma população exclusiva que necessita de vários serviços. Os indivíduos que saem de cultos podem sofrer de síndrome do trauma pós-culto, necessitando de cuidados especiais de profissionais com formação para lidarem com traumas complexos. Perante isto, os profissionais devem estar cientes de que os sobreviventes precisam de tempo para mudarem os seus processos mentais. A utilização da teoria de culto para entender o tráfico sexual controlado por proxenetas ainda está numa fase inicial; futuros investigadores têm a ampla oportunidade de explorar ainda mais estas intersecções teóricas e práticas.

*“A vida” é uma frase comummente utilizada entre as vítimas de tráfico para descrever o momento em que foram exploradas na indústria do sexo comercial.

 

Megan Lundstrom é a Fundadora da Free Our Girls.

Angie Henderson é Professora de Sociologia na Universidade do Norte do Colorado.

Este artigo foi escrito por Megan Lundstrom e Angie Henderson, enquanto contribuintes para a Delta 8.7. Tal como previsto nos Termos e condições de utilização da Delta 8.7, as opiniões expressas neste artigo correspondem às opiniões do(s) autor(es) e não refletem necessariamente as opiniões da UNU ou dos respetivos parceiros.

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